Parte da trajetória

Ao longo do meu caminho tive uma época que costumava escrever poemas e crônicas, isso era muito importante pra mim, cada texto de certa forma explicitava e clareava o que eu vivia e a lição que tinha aprendido ao longo da jornada de minha alma. Eu os publiquei em um blog: www.umapitada.blospot.com

“Quem sou eu?

Sou o fruto da sociedade 20 por 80
Sou o fruto da igualdade, liberdade e fraternidade

Sou o fruto das conjunções astrológicas
Sou o fruto da soma da minha data de nascimento
Sou o fruto do Destino
Sou o fruto do meu livre arbítrio

Sou o fruto da mídia

Sou o fruto das contradições
Sou fruto das convicções

Sou o fruto das escolas românticas e pós-romanticas
Sou o fruto do cientificismo

Sou o fruto da lousa e do giz
Sou o fruto do intervalo e do pátio

Sou o fruto do idealismo
Sou o fruto do materialismo

Sou o fruto de Platão
Sou o fruto de Aristóteles

Sou fruto de empirismo
Sou fruto do existencialismo

Sou o fruto do positivismo

Sou o fruto do pragmático
Sou o fruto do simbólico
Sou o fruto do abstrato

Sou o fruto do prático
Sou o fruto do teórico

Sou o fruto da tecnologia
Sou o fruto da magia

Sou o fruto de um espermatozóide e um óvulo
Sou o fruto da minha cultura

Sou uma ideologia, uma cultura, uma história, um sentimento, vários sentimentos, sou o que visto, o que como, o que vivo, o que digo, o que amo, o que respiro, o que prego, o que leio, o que faço, o que vivo

E mesmo assim não sou nada.”

Escrevi esse texto em 2008, eu estava no primeiro ano do curso de pscologia, estava aprendendo sobre as coisas que determinavam como uma pessoa era, ouvia vários professores meus dizendo que éramos determinados pela sociedade em que vivemos, pela nossa dinâmica familiar, pelo nosso nível de escolaridade…

Eu entendia o que diziam, fazia sentido tudo aquilo, mas no fundo algo me incomodava profundamente, algo dentro de mim dizia: “não é bem assim”. Resolvi dar atenção pra ela, pra essa voz interna que na época era bem baixa, quase inaudível que me descobri único. Sim existiam muitas coisas no mundo ao meu redor que me compõe como um indivíduo, mas eu não era só isso, eu era mais.

O mais lindo de tudo isso foi que ao me descobrir único, singular, eu descobri um mundo de pessoas únicas. Olhava pras pessoas diretamente, como se olhasse para dentro delas, os aglomerados de pessoas já não existiam, eu não enxergava mais a minha sala, o meu grupo de amigos, eu conseguia ver cada pessoa ali como excepcional com seus desejos, medos, anseios, poesia e beleza particulares.

“”Inevitável é a morte para os que nascem; todo o morrer é um nascer – pelo que, não deves entristecer-te por causa do inevitável.” Krishna

“Inevitável é a transformação para os que vivem; todo transformar é um viver – pelo que, não deves entristecer-te por causa do inevitável – tentar evitar evitar a mudança é não viver” Daniel”

No período que escrevi isso, estava percebendo que o mundo era fluxo, mudança e processualidade, nada estava parado, não existia o “sempre o mesmo”, pois tudo mudava tudo era novo a cada segundo.

“Eu o vi passar, jamais vi um menino tão lindo. Eu o vi passar e o mirei fixamente. Joguei em seu corpo todos os meus desejos, todos os meus anseios e todos os meus sonhos. Mas… Esqueci de lembrar que ali, naquele corpo, naquela carne, morava uma pessoa.

………………………………………………………………………

A beleza está no pedestal, não no que está sobre ele. Mas quando a pessoa desce dele, ou quando a tiramos de lá. Não há nada mais lindo que esse humano que vive, que sofre, que ama. Não há nada mais lindo que esse humano que pulsa.”

Descobri, então, que as pessoas são muito mais bonitas quando não esperamos nada delas, quando não desejamos nada delas, quando simplesmente as deixamos ser.

“Silêncio

Fazia muito tempo que não ficava em silêncio
Talvez pelo medo que ele me causava
Talvez pela dor que ele trazia

Mas agora…
Me senti tão bem, tão comigo, tão em paz
Que pude ouvir minhas asas se abrindo”

O poder do silencio interno, a coisa mias linda que existe.

“Montanha Russa

Subia! sentia a corrente da montanha russa levar meu carro pra cima. Tinha acabado de sair de um vale e ia em direção a crista. A crista estava próxima. Não, não quero chegar na crista, a sensação de subir é tão boa. É magnífica! Quero ficar parado aqui, mas se eu parar… só haverá dor! Devo seguir meu fluxo! Isso mesmo, o fluxo! Se eu me permitir,
a crista chega, depois eu serei lançado ao vale, mas logo logo outra crista vai chegar de novo.
Entre tantos altos e baixos posso escolher a vida com menos sofrimento, com menos aflição. Creio que não é tão difícil assim… mas também não é fácil. É só se permitir e seguir o fluxo, com uma boa dose de incensos, cartas de tarot, noites olhando as estrelas, e uma deliciosa primavera. Bem. Acho que essa receita não serve pra todo mundo… então… qual a sua receita pra andar nessa montanha-russa infinita?”

Seguir o fluxo, não estagnar, entregar-me aos processos internos que me ocorrem, vivenciá-los. Como uma vez li no texto do Osho, se olharmos diretamente pra dor, ela se torna bela, ela deixa de ser dor. Foi o que aprendi nesse período da minha vida, é vivenciando os vales e as cristas como parte da vida, diminuímos os sofrimentos causados pelos vales.

“Ode a quem respira

Ode aos que trazem suas cores e suas flores na pele
Pois eu já não as trago, eu já não as mostro
Não que não as tenha
Elas ainda pulsam dentro de mim

Em um deserto, flores não devem ficar a vista
Se somente uma flor se mostra ; morre
Se todas se mostram; não é deserto
É primavera!”

Esse foi um período bem tenso pra mim, me sentia atacado pelo mundo, então me escondi, refugiei-me em mim. Mas foi nesse período que me deparei com o mais belo e o mais horrível dentro de mim mesmo, foram muitas lagrimas, mas que hoje vejo que me fizeram bem, pois foi um período de grande crescimento.

“Água da chuva

Gostava da água da chuva, gostava de lavar suas roupas com ela, a achava muito melhor do que aquela água que vinha pela torneira.

Achava que aquela água que vinha com a chuva era sagrada, com dons de cura. Mágica!

Não sabia ela que a magia não estava na água que usava, mas no ato de lavar suas roupas.”

Foi quando aprendi que o ato de buscar me conhecer e buscar ser mais pleno era mais importante do que os instrumentos que eu utilizava.

“Consciência

Meu corpo se encheu de água do mar, jorrando por todos os poros. Um pequeno homem de luz entrou pelo topo da minha cabeça, e começou a nadar naquele meu mar. Como se fosse algo natural àquela criaturinha de luz se expandiu e tornou todo o meu corpo luz. Minhas mãos formigavam. Meu corpo não jorrava mais água pelos poros, mas sim luz.
Foi quando então que vi olhos, negros como a noite, cheios de lagrimas, cheios de dor. As lágrimas borravam toda a figura que começava a ganhar cor, tornar-se uma borboleta. Com suas asas coloridas começou a voar ao meu redor e pousou nas minhas cortas, bateu asas mais algumas vezes e grudou-se em minha pele. Ela agora fazia parte de mim.
Como era libertador ter uma borboleta fazendo parte de mim. Estava sentindo a liberdade tão intensamente que nem notei que havia um logo do meu lado, um lobo cinza, que me olhava com olhos ternos e ao mesmo tempo olhava ao redor como quem vigia. Senti-me grato por ele estar ali. Havia uma cobra junto com ele, não sei ao certo qual era sua cor, só sei que ela me envolvia com um circulo. Sem que eu fizesse nada ela entrou pela base da minha coluna e subiu até o topo de minha cabeça. Meu corpo tremia, uma sensação de força e poder irradiavam em meu ser. Era prazeroso, mas assustava.
Senti então necessidade de deitar. E assim que me deitei vi luzes sobre mim, elas ardiam como fogo, mas não queimavam. Alojaram-se em várias partes do meu corpo e traziam mais energia praquele corpo que já estava repleto de luz. Senti-me pleno, senti que fazia parte do mundo, senti que era um com o universo.
Quando levantei, não havia mais luzes, cores, nem mesmo asas de borboleta. Mas havia grandes asas, lindas e que refletiam todas as cores do arco-íris. E novamente me senti grato por ver todas as minhas verdadeiras cores.”

Esse é o relato de uma meditação que vivencia.

“A volta de Dionísio

Já fazia mais de um ano que ele havia partido, toda a minha revolta e minha dor já tinham se assentado. Eu já não sofria mais.
No dia primeiro de dezembro, dia mundial de combate a AIDS, ele voltou a minha mente. Eu sabia que não era somente por causa do dia, hiavia algo mais. Passei o dia todo me debatendo, como um animal que apesar de não saber onde está, sabe que está preso de alguma forma. A noite caiu, fui pra minha aula de floral. Aprendi a essência Gorse, é para aqueles que acreditam que não vale a pena lutar por mais nada. Eu o vi em seus últimos dias na descrição do perfil negativo desse floral: a vida era pesada, um fardo, algo que não era mais possível suportar. Fui ao banheiro e chorei. “Se eu tivesse conhecido os florais antes…”, “ Se eu tivesse sido um pouco mais maduro…” Enxuguei as lagrimas e voltei a aula.
Passei dois meses com uma angustia dentro de mim, era como se eu tivesse uma mariposa se debatendo dentro do meu corpo desejando liberdade. Não sabia o porque dela estar ali, nem mesmo o que a prendia, afinal, “eu já havia me despido da grande maioria dos meus antigos padrões”. Não havia vela, não havia meditação, prece ou incenso que tirasse aquela mariposa de mim. Já estava me habituado a ela.

Comecei a tomar Star of bethlehem, o floral da limpeza da alma, foi como uma chuva depois de um dia quente. A mariposa, mesmo assim, não saia de dentro de mim, ao contrario, ela se debatia cada vez mais com esse floral. Viajei. Fui pra Bahia e a mariposa se acalmou com um ramo de arruda de uma baiana cheia de axé. Como era bom respirar novamente, sem toda aquele estardalhaço que as assas dela faziam.

Em uma manha chuvosa, em uma praia semideserta, com falésias atrás mim, o vento soprando sobre meu rosto, o mar agitado e as ondas molhando meus pés, foi que finalmente compreendi. Era preciso que eu libertasse para poder ser livre. Coloquei minha mão sobre meu peito e respirei fundo. Pela primeira vez, me senti livre de toda culpa. Star of bethlehem mostrou-me outra de suas fases, além de ser como a chuva, era como um bálsamo que ao mesmo que tempo que conforta, faz arder às feridas, para que eles se tornem vivas e possam finalmente cicatrizar-se por completo. Aquela mariposa saio de mim,voou livre, rumo a um local longe do meu controle. Longe dos meus braços, que querendo confortar e acolher, acabaram sufocando. Longe da minha carência que a aprisionava. Eu finalmente libertei parte do Filho de Dionísio que eu ainda guardava em mim por insegurança, por medo do novo. Senti uma energia terna me envolvendo, era como um abraço caloroso de quem se despede, vi essa energia indo para um local além da minha compreensão. Não consegui segurar a lagrima que escorreu e molhou meu sorriso.
O vento sussurrou em meu ouvido o que me pareceu a música mais apropriada para a situação, e eu cantei, embalado pela energia do momento:

Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim

De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás”

Esse foi é o relato de uma experiência linda que tive com o floral  Star of bethlehem a respeito de um grande amigo meu que morreu de AIDS.

“Amor

Havia uma flor. Bela, tão bela que me completava e me preenchia. Resolvi, de súbito, pegá-la. Sem nem mesmo ter tempo de respirar, levei-a ao nariz. Aspirei um cheiro doce. Amargo, suave, intenso… picante. Esse aroma inundou meus pulmões, encheu minha alma.
Levei-a pra casa, coloquei em um vaso. Mas, ela não era bonita naquele vaso… era tão somente a lembrança daquela flor que peguei no caminho de casa. A lembrança me bastava. E o cheiro, o cheiro era doce, amargo, suave, intenso, picante, sem cheiro e enchia a minha casa, os meus pulmões, não mais a minha alma. A casa estava perfumada e isso me bastava.
Um dia, a flor secou. Não lembrava mais a flor que eu havia colhido, tampouco cheirava algo. Era simplesmente algo morto, parado. Inerte. Resolvi tirá-la dalí, mas… o que as visitas iriam pensar ao ver um vaso sem flor? Deixei-a, então. Ela preenchia o vaso e isso me bastava.
Seca. Tão seca a flor estava, que me secava por dentro. Me secava, me cortava a alma.
Joguei-a fora. De imediato, um alivio. Mas foi terrível pra mim ver o vaso vazio… o que as visitas iriam pensar?
Havia uma flor. bela… tão bela que me completava e me preenchia. Que reanimava minha alma cortada pela outra flor. Deixei-a ali, para que não secasse em um vaso.
Para que não me secasse a alma.”

Nesse período, eu aprendi que amar é deixar as pessoas serem como elas são e não é tentar mudá-las para o que eu quero que elas sejam, mas deixá-las ser. Aprendi isso infelizmente com muita dor, foi uma das coisas mais dolorosas que aprendi. Devo esse crescimento a uma grande amiga minha, a Paula, ela me ensinou o que é o amor livre e que ele não se resume a pessoa com a qual eu me relaciono amorosa e sexualmente, mas que é uma forma de se relacionar com todas as pessoas que encontro, conheço, amo e curo.

Essas foram lições que tive, ela se repetiram várias vezes ao longo da minha jornada, são no mínimo 5 anos de peregrinação. Eles se repetem pois volta e meia me esqueço delas. volta e meia esqueço-me da existência do humano que vai além do meu desejo e do que espero dele, às vezes esqueço de que as pessoas não precisam ser curadas porque são felizes como são, e muitas vezes eu esqueço de que a amizade e o amor devem ser dados sem se pedir nada em troca, sem pedir reciprocidade ou dependência. E é por isso que busco sempre ter consciência dos meus atos, na busca de sempre praticar as lições que o universo me ensinou.

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