O menino e o buraco

Voltei da praia semana passada, vivi coisas muito lindas lá, presenciei energias muito fortes e muito antigas. Tive várias crises de cura, algumas fofas, outras que me deixaram 4 dias com desarranjo intestinal. Mas o que vim escrever não foi sobre como eu me senti tendo que correr várias vezes para o banheiro, eu vim contar algo que observei e que muito me encantou.

Estava sentado na areia quando vi um menino, ele devia ter aproximadamente 8 anos. Ele cavava um buraco na areia. Uma coisa típica de criança na praia, e de alguns adultos, ou semi-adultos como eu. Modéstia a parte sou um ótimo cavador, afinal, são no mínimo 10 anos de pratica em cavar buracos na areia.

O menino ia até o mar, enchia uma garrafa pet de 2 litros de água, voltava para a areia, despejava TODA a água e depois começava a cavar. Ele dava duas cavados (conjugação recém criada que indica: colocar a mão dentro do buraco e tirar um punhado de areia, ou seja, ele tirou dois punhados de areia do buraco), e a água já tinha sido absorvido pela areia,  fazendo-o voltar pro mar e encher novamente a garrafa. Eu pensava: “esse menino ta enchendo a garrafa errado, tá demorando muito pra ela ficar cheia…” Eu quase fui lá ajudá-lo, como podia alguém não conseguir cavar um buraco direito? Mas decidi esperar.

Depois de umas 3 vezes que ele voltou com a garrafa cheia, ele finalmente aprendeu que não era bom jogar toda água, que o mais interessante a fazer era jogar um pouco, cavar, jogar mais um pouco… Depois de perceber o quanto eu estava subjulgando o menino porque ele não acertou na primeira vez, comecei a reparar mais no que ele fazia. Foi só então que percebi o quão divertido era encher a garrafa, ele não queria somente a água, ele a enchia como se fosse um foguete debaixo da água (o que, teoricamente o tornaria um submarino, mas, que seja) era outra brincadeira dentro da brincadeira de cavar.

Quando me dei conta de que quase estraguei toda a diversão do menino no momento em que quis ir “ensinar” o “jeito certo” de se cavar, lembrei-me o quando eu gostava de criar meus próprios modos de cavar. Afinal o mais divertido mesmo é aprender a fazer por conta, lidar com os desafios e tentar superá-los. Se eu tivesse lhe lado a formula de como fazer o buraco, ele não teria que desenvolve-la, parte da brincadeira estaria acabada.

Fui mais além um pouco e fiquei pensando de como eu me sentia mal quando me davam as coisas prontas, quando eu não podia experimentar várias formas de fazer as coisas. Pensei em como, no fim das contas, apesar de eu praguejar muito, eu sempre achei a tentativa-e-erro algo lindo. E pensei, que bom que em nossa vida, espiritualmente falando, temos essa liberdade de tentarmos, de experimentarmos, com alguns conselhos e pequenas e sutis dicas que nos aparecem no caminho, mas a decisão, o desenvolvimento sempre é nosso. Afinal, se fosse diferente, não teria tanta graça.

Enquanto terminava de escrever o esboço desse texto, o menino conseguiu cavar até o ponto onde a areia encontra o nível da água, nesse nível a areia é naturalmente molhada e não é mais necessário buscar água com baldes ou garrafas. Chegar nesse nível era o que mais gostava quando era criança (e gosto ainda, cavei super fundo e alcancei 3 vezes esse encontro da areia com a água esse ano, foi um dos meus múltiplos micro-prazeres da praia).

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